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Cabo Verde: o mar como futuro, o turismo como motor e a cooperação como horizonte
Tempo de liberação:2026-08-20
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Presidente da República, José Maria Neves

Foto: ANG

 

“O mar é o futuro de Cabo Verde”, declarou recentemente o Presidente da República, José Maria Neves. Mais do que uma declaração política, trata-se de uma definição estratégica para um país arquipelágico cuja identidade, economia e posicionamento geopolítico sempre estiveram ligados ao Atlântico.

A dimensão da sua Zona Económica Exclusiva, muito superior ao território terrestre, constitui um activo central para a Economia Azul — da produção de energia renovável à dessalinização, das pescas sustentáveis à biotecnologia marinha, do transporte marítimo ao turismo costeiro. Num contexto global em que os oceanos assumem crescente relevância económica e ambiental, Cabo Verde procura transformar a sua condição insular numa vantagem competitiva estruturante.

O Presidente acrescentou, de forma inequívoca: “Com o mar podemos produzir água, medicamentos, indústrias alimentares, gerar electricidade, garantir transportes e desenvolver o turismo”, sublinhando que este património deve ser aproveitado de forma sustentável[1].

Num arquipélago atlântico de vocação marítima, a chamada Economia Azul deixou de ser apenas conceito para se tornar eixo estruturante do desenvolvimento nacional. O mar é fonte de recursos, de energia, de mobilidade e de conhecimento científico. É igualmente a base de um turismo diferenciado, que combina natureza, cultura, hospitalidade e estabilidade institucional. Esta visão presidencial encontra eco noutras intervenções institucionais[2].

Localizado no Atlântico Médio, a cerca de 570 quilómetros da costa da África Ocidental, ao largo do Senegal, Cabo Verde é um arquipélago composto por dez ilhas e vários ilhéus, distribuídos em dois grupos — Barlavento (Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista) e Sotavento (Maio, Santiago, Fogo e Brava). A capital é a cidade da Praia, na ilha de Santiago, sendo igualmente relevantes os centros urbanos do Mindelo (São Vicente), Santa Maria (Sal) e Assomada (Santiago). Embora o território terrestre tenha cerca de 4.033 quilómetros quadrados, o país dispõe de uma vasta Zona Económica Exclusiva que ultrapassa os 700 mil quilómetros quadrados, conferindo-lhe uma dimensão marítima estratégica muito superior à sua área emersa e reforçando a centralidade do mar no seu modelo de desenvolvimento.

Os números recentes confirmam que Cabo Verde está a transformar visão em resultados. Em 2025, o país registou 1.248.052 hóspedes nos estabelecimentos hoteleiros, um aumento de 6% face ao ano anterior[3]. As dormidas atingiram 6.120.204, com crescimento de 8,3%, e a taxa de ocupação-cama subiu de 60% para 72%[3]. A estadia média fixou-se em 4,8 noites[3]. Estes dados consolidam o turismo como um dos principais motores da economia nacional.

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Cruzeiros no porto do Mindelo, São Vicente

Foto: Instituto do Turismo de Cabo Verde (ITCV)

 

Antes da pandemia, entre 2016 e 2019, o sector crescia a uma média de 7% ao ano, superando os 800 mil turistas e contribuindo directamente com 25,6% para o PIB em 2019[4]. Após a forte retracção de 75% provocada pela COVID-19[4], a recuperação foi rápida e consistente.

O objectivo estratégico definido no Programa Operacional do Turismo (POT 2022-2026), enquadrado no Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável (PEDS II), é ambicioso: atingir 1,26 milhões de turistas e elevar para 40% a proporção de entradas nas restantes ilhas, além do Sal e da Boa Vista, promovendo maior desconcentração territorial[4]. O plano visa ainda aumentar a contribuição do turismo para o PIB para 32% e reforçar o impacto na redução da pobreza[4].


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Actualmente, o turismo internacional representa 95,5% dos hóspedes e 97,6% das dormidas[3]. O Reino Unido lidera como mercado emissor, com 29,3% das entradas e 33,5% das dormidas, seguido de Portugal (12,1%), Alemanha (10,5%), França (10,1%) e Bélgica e Holanda (7,5%)[3]. A ilha do Sal concentra 57,7% das entradas, seguida da Boa Vista (24,4%), Santiago (8,1%), São Vicente (4,4%) e Santo Antão (3,5%)[3]. Estes dados ilustram tanto o sucesso alcançado como o desafio da diversificação territorial.


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No plano da oferta, Cabo Verde dispõe de cerca de 296 estabelecimentos hoteleiros registados, segundo o último inventário oficial do INE[3]. A presença de grandes cadeias internacionais, como Hilton, RIU, Meliá, Barceló e Marriott/Four Points, sobretudo nas ilhas do Sal, da Boa Vista e de São Vicente, evidencia a confiança do investimento externo na estabilidade e previsibilidade do país.

A aposta em qualidade e segurança foi recentemente reiterada em Portugal pelo presidente do Instituto do Turismo de Cabo Verde, Hamilton Jair Fernandes, que afirmou que o país “continua a afirmar-se como um destino de excelência e seguro, tanto a nível da ordem pública como nas condições higiénico-sanitárias”[5]. Sublinhou ainda que Cabo Verde registou em 2025 um crescimento turístico de 16%, acima da média mundial, o que demonstra que é “um destino que se aconselha”[5].

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Presidente do ITCV, Hamilton Jair Fernandes

Foto: Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas

 

A estabilidade política e institucional ajuda a compreender esta trajectória. Descoberto em 1460 por navegadores italianos e portugueses, o arquipélago iniciou o povoamento em Santiago, em 1462[6]. Pela sua posição estratégica nas rotas entre Europa, África e Brasil, tornou-se entreposto comercial e ponto central do tráfego atlântico[6]. A mestiçagem entre europeus e africanos deu origem a uma identidade própria e ao crioulo como língua de comunicação[6]. Em 5 de Julho de 1975 foi proclamada a independência nacional. Após a independência e a realização das primeiras eleições multipartidárias, Cabo Verde consolidou uma democracia parlamentar estável, gozando de credibilidade junto de governos e instituições financeiras internacionais[6].

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Praia de Santa Maria, Sal

Foto: MN

 

Esta credibilidade reflecte-se no reforço da parceria com o Banco Mundial. A Sociedade Financeira Internacional (IFC) anunciou o aumento da carteira de investimentos em Cabo Verde nos sectores dos transportes, cultura, indústrias criativas, Economia Azul, economia digital e turismo[7]. O director executivo da IFC, Makhtar Diop, confirmou em 2025 o apoio continuado ao transporte aéreo e a sectores estratégicos[7]. O Governo destacou que a carteira de investimentos passou de zero para 110 milhões de dólares em cinco anos, essencialmente dirigidos ao sector privado, incluindo turismo e aeroportos[7].

Do ponto de vista macroeconómico, Cabo Verde tem vindo a consolidar uma trajectória de crescimento sustentado, ancorada na estabilidade institucional e na abertura ao investimento externo. O turismo assume um papel estruturante neste contexto, tendo contribuído directamente com 25,6% para o Produto Interno Bruto em 2019, antes da pandemia, e representando actualmente um dos pilares centrais da retoma económica[4]. A estratégia governamental definida no PEDS II e no Programa Operacional do Turismo (POT 2022-2026) aponta para o aumento da contribuição do sector para 32% do PIB, reforçando o seu impacto na criação de riqueza, emprego e redução da pobreza[4]. Esta orientação demonstra uma visão clara de crescimento com base em sectores competitivos e integrados na economia global.

No plano do investimento, a evolução recente é particularmente expressiva. A carteira da Sociedade Financeira Internacional, instituição do Banco Mundial, passou de zero para 110 milhões de dólares em apenas cinco anos, com enfoque no turismo, nos transportes e nas infra-estruturas aeroportuárias[7]. O objectivo anunciado pelo Governo é duplicar esse montante, criando condições para maior dinamização do sector privado e para a geração de emprego qualificado, sobretudo entre os jovens[7]. Paralelamente, a presença de grandes grupos hoteleiros internacionais e a expansão das rotas aéreas de baixo custo evidenciam a confiança externa na economia cabo-verdiana e reforçam a sua integração nas cadeias globais de valor.

As oportunidades de investimento em Cabo Verde vão, contudo, muito além do modelo tradicional de “sol e praia”. A aposta na Economia Azul abre perspectivas nas áreas da dessalinização, energias renováveis marinhas, biotecnologia, pescas sustentáveis e transportes marítimos[1]. O desenvolvimento do nomadismo digital e da economia tecnológica cria igualmente espaço para projectos ligados à conectividade, inovação e serviços de elevado valor acrescentado[10]. Num contexto internacional em que os pequenos Estados insulares procuram modelos resilientes e sustentáveis, Cabo Verde apresenta-se como uma plataforma atlântica estável, com enquadramento jurídico previsível e estratégia económica orientada para diversificação, sustentabilidade e competitividade global.

No domínio do património, Cabo Verde valoriza a sua história atlântica. A Cidade Velha, centro histórico da Ribeira Grande em Santiago, foi inscrita na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2009[8].

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Cidade Velha

Foto: UNESCO / Sébastian Moriset

 

Fundada oficialmente em 1462, a Ribeira Grande — hoje Cidade Velha — foi a primeira cidade estabelecida pelos europeus nos trópicos e a primeira capital de Cabo Verde. A sua localização estratégica na ilha de Santiago permitiu-lhe tornar-se, nos séculos XV e XVI, um dos mais importantes entrepostos comerciais do Atlântico, desempenhando papel central nas rotas entre a Europa, a costa africana e o Brasil. Foi ali que se consolidou uma das primeiras sociedades crioulas do mundo, fruto do encontro entre culturas europeias e africanas.

As suas ruas calcetadas, a Fortaleza Real de São Filipe e o Pelourinho manuelino do século XVI testemunham essa herança. A fortaleza, construída para proteger a cidade de ataques de corsários, e o pelourinho, símbolo da administração colonial, confirmam a relevância histórica e geopolítica do espaço. A classificação como Património Mundial da UNESCO, em 2009, reconhece não apenas o valor arquitectónico do conjunto, mas o seu significado na formação do mundo atlântico moderno.

O país pretende agora avançar com a candidatura do antigo Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial, numa iniciativa conjunta com Portugal, Guiné-Bissau e Angola[9]. Criado em 1936, o chamado “campo da morte lenta” recebeu mais de 500 presos políticos, tendo 36 ali falecido[9]. Cabo Verde procura aproveitar uma “janela de oportunidade” antes de novas directivas da UNESCO em 2028[9]. A candidatura sublinha uma diplomacia da memória que transforma a dor histórica em compromisso com os direitos humanos.

Paralelamente, Cabo Verde posiciona-se como destino inovador. O projecto “Nómadas Digitais Cabo Verde”, promovido pelo Ministério do Turismo em parceria com a Cabo Verde Digital, visa atrair trabalhadores remotos e reforçar a imagem do arquipélago como hub digital no Atlântico Médio[10]. Segundo o Governo, trata-se de um passo “audacioso” para abraçar o futuro do turismo, indo além do modelo tradicional de massas e promovendo sinergias que beneficiem as comunidades locais[10]. A primeira fase arrancou em São Vicente, ilha de riqueza cultural e espírito dinâmico, com investimento em infra-estruturas tecnológicas e internet fiável[10]. Esta estratégia conjuga turismo, economia digital e diáspora, reforçando a diversificação económica.

Mas Cabo Verde é também experiência. Das praias de Santa Maria às dunas do deserto de Viana, na Boa Vista, onde os grãos de areia chegam do Saara, passando pela observação de tartarugas entre Julho e Outubro nas praias do Sal, pelo mergulho em águas ricas em vida marinha, pelo surf e kitesurf no “Tempo das Brisas”, pela subida ao Pico do Fogo, com 2.800 metros de altitude, pelas caminhadas nos vales verdejantes de Santo Antão, pelos concertos de morna em Mindelo, berço da cantora Cesária Évora, pela flutuação nas salinas de Pedra de Lume e pelas excursões de observação de baleias entre Março e Maio, o arquipélago oferece um mosaico de natureza, cultura e aventura, afirmando-se como destino privilegiado para actividades diversificadas[11]. Esta riqueza de experiências reforça a estratégia de aumentar a despesa turística no destino, fortalecer a cadeia de valor local e reduzir dependências externas, metas inscritas no POT 2022-2026[4].

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Reserva Natural de Tartarugas, Boa Vista

Foto: RST

 

Cabo Verde apresenta-se hoje como plataforma atlântica de cooperação e investimento. A sua posição geoestratégica entre África, Europa e Américas, aliada à estabilidade política e ao compromisso com a Economia Azul, cria condições favoráveis para aprofundar parcerias no quadro da cooperação Sul-Sul e no diálogo com a Ásia.

“O mar é o futuro de Cabo Verde”[1]. A frase do Presidente não é apenas metáfora. É programa. Num mundo em transformação, o arquipélago afirma-se como laboratório de desenvolvimento sustentável insular, onde turismo, património, economia digital e cooperação internacional convergem. Cabo Verde afirma-se, assim, como interlocutor credível, aberto ao investimento produtivo, à inovação tecnológica e à construção conjunta de um futuro azul, inclusivo e partilhado.


 


Fontes

[1] Inforpress – “Caminhada Azul: Presidente da República reafirma que ‘o mar é o futuro de Cabo Verde’”.
[2] Expresso das Ilhas – “Turismo cresce em 2025 com mais de 1,2 milhões de hóspedes”. Baseado no INE.
[3] CaboVerdeExpert – “Turismo Sustentável em Cabo Verde: Rumo à Desconcentração e Excelência”.

[4] Balai / Inforpress – “Portugal: Cabo Verde continua a afirmar-se como um destino de excelência e seguro, diz presidente ITCV”.
[5] Governo de Cabo Verde – “História”.
[6] RFI – “Banco Mundial reforça parceria estratégica com Cabo Verde”.
[7] UNESCO World Heritage Convention – “Cidade Velha, Historic Centre of Ribeira Grande”.
[8] Forbes Portugal – “Cabo Verde quer candidatura conjunta do campo do Tarrafal à UNESCO”.
[9] Balai / Inforpress – “Cabo Verde destaca-se como principal destino para nómadas digitais na África Ocidental”.
[10] The Times – “20 of the best things to do in Cabo Verde”.