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Das matérias-primas à inovação: comércio sino-lusófono em mudança
Tempo de liberação:2026-06-05
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O comércio entre a China e os Países de Língua Portuguesa está a entrar numa nova fase, rumo a uma diversificação progressiva para lá das trocas de matérias-primas tradicionais, em direcção a um comércio de maior valor acrescentado

Durante grande parte das últimas duas décadas, o comércio entre a China e os Países de Língua Portuguesa foi frequentemente sintetizado, de forma simples, como a troca de recursos naturais por bens industriais relativamente indiferenciados. Petróleo, minérios e produtos agrícolas com baixo nível de processamento – como soja e açúcar – constituíram os pilares dessa relação económica. Contudo, nos últimos anos, sinais claros indicam que esta equação está a sofrer uma mutação significativa. Embora as matérias-primas continuem a desempenhar um papel importante, o comércio sino-lusófono está progressivamente a diversificar-se para formas de maior valor acrescentado, incluindo tecnologia agrícola, equipamentos de energias renováveis, produtos farmacêuticos, serviços financeiros e alimentos transformados.


Esta evolução reflecte tendências estruturais tanto na economia chinesa como nas estratégias de desenvolvimento dos Países de Língua Portuguesa. Por um lado, a China está num processo de consolidação da sua transição para sectores tecnológicos e industriais avançados, reduzindo gradualmente a dependência de modelos intensivos em recursos e mão-de-obra. Por outro, várias nações lusófonas – do Brasil a Portugal, passando por Angola, Moçambique ou Cabo Verde – procuram, cada uma de forma diferente, diversificar as suas economias e subir nas cadeias globais de valor.


O comércio sino-lusófono apresentou, ao longo das últimas décadas, um “padrão estável” de crescimento, na leitura de Francisco Leandro, director adjunto do Instituto de Assuntos Globais e Públicos da Universidade de Macau. Esta tendência, nota, “reforçou fluxos comerciais regulares e previsíveis”, que permitem agora aos Países de Língua Portuguesa “beneficiar de acesso a equipamentos e soluções tecnológicas essenciais à modernização económica”, provenientes da China. Este acesso possibilita a essas nações produzir produtos de maior valor acrescentado do que no passado, que depois podem comercializar junto do mercado chinês, entre outros.


Em termos de volume, os números falam por si. Segundo dados oficiais, em 2002, o comércio sino-lusófono fixou-se em 5,6 mil milhões de dólares americanos. Em 2025, as trocas comerciais atingiram um valor recorde de 225,8 mil milhões de dólares americanos, de acordo com os Serviços de Alfândega da China.


O comércio sino-lusófono “promoveu a criação de infra-estruturas logísticas robustas, inicialmente desenhadas para o escoamento de produtos a granel, mas que hoje sustentam novas oportunidades para diversificar cadeias de valor”, resume o perito em relações internacionais. “Este facto corresponde certamente ao interesse comum de todas as dez partes envolvidas”, defende, numa referência à China e aos nove Países de Língua Portuguesa.

Brasil, uma história de sucesso

No caso do Brasil, denota Francisco Leandro, a relação “tem sido particularmente vantajosa” para o país sul-americano, como o demonstra o excedente comercial bilateral de 44,8 mil milhões de dólares americanos obtido em 2025, segundo dados compilados pelos Serviços de Alfândega da China. Este desempenho “reforça a posição do Brasil como parceiro estratégico e fornecedor fiável num contexto global cada vez mais competitivo”, sustenta o académico.


O Brasil é, entre os Países de Língua Portuguesa, o maior parceiro comercial da China em termos de volume de negócios. Assim o é desde 2009. No entanto, se a relação comercial continua a crescer em dimensão, também começa a transformar-se em termos de composição. Embora a soja, o petróleo e o minério de ferro continuem a dominar o fluxo de mercadorias, analistas e responsáveis governamentais assinalam uma mudança gradual: as vendas brasileiras para o mercado chinês apresentam sinais de maior diversificação e valor acrescentado. A China é já o segundo principal mercado para exportações da indústria de transformação brasileira, mostram dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).


Em 2024, o Brasil exportou 2589 categorias de produtos para a China – quase o quádruplo do número registado em 1997, de acordo com a publicação “Análise Socioeconómica do Comércio Brasil-China”, publicada em Setembro do ano passado pelo CEBC em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil. Esses avanços indicam uma “progressiva diversificação” do âmbito das trocas comerciais, “mostrando que, embora as ‘commodities’ agrícolas, minerais e energéticas ainda liderem em valor, o Brasil tem conseguido inserir uma gama mais ampla de bens no mercado chinês, incluindo produtos manufacturados, semimanufacturados e de maior valor agregado”.


De acordo com o documento, “o crescimento contínuo nas vendas de carnes, celulose em diferentes etapas de beneficiamento, café e até mesmo algumas manufacturas industriais ilustra esse processo de diversificação”, que também tem ampliado o número de empresas brasileiras envolvidas nas vendas para a o mercado chinês.


A mesma análise nota ainda que é “importante assinalar que a China exerce um papel estratégico como catalisador da inovação” no campo das exportações do país sul-americano. Tal inclui não apenas a indústria de transformação: a procura chinesa “impulsionou investimentos em pesquisa e desenvolvimento no agronegócio e na indústria extractiva, resultando em avanços tecnológicos genuinamente brasileiros” em áreas mais tradicionais.


Um exemplo disso é o desenvolvimento de briquetes de minério de ferro pela mineradora brasileira Vale. Trata-se de um produto inovador, formado pela aglomeração de minério de ferro fino a baixas temperaturas, que é depois usado na produção de aço, reduzindo em até 10 por cento as emissões de gases com efeito de estufa. A Vale começou a produção para fins comerciais deste produto em 2024.


No entender de Diego Trindade d’Ávila Magalhães, docente da Universidade Federal de Goiás, no Brasil, a relação comercial sino-brasileira contemporânea tem sido caracterizada por um padrão “tipicamente centro-periferia”. Sinal disso é que, de 2015 a 2024, mais de 95 por cento das importações do Brasil provenientes da China eram de produtos industrializados, enquanto quase todas as trocas em sentido inverso eram de carácter primário.


No entanto, do ponto de vista político-diplomático, “há na agenda bilateral abertura e maturidade para abordar a preocupação com a ‘primarização’ da economia brasileira”, refere o perito em assuntos estratégicos internacionais, com especialização na área do relacionamento China-Brasil. Reflexo disso é que o investimento externo chinês tem sido uma das principais forças motrizes em anos recentes no que toca ao desenvolvimento e modernização industriais do país sul-americano, com grandes projectos nos campos da maquinaria pesada, do sector automóvel e das energias verdes, entre outros, muitos deles com vocação exportadora.

O papel de Macau

O Fórum de Macau tem tido um papel de relevo como catalisador da elevação das cadeias de valor envolvidas nas trocas comerciais sino-lusófonas. Se, em 2003, ano da criação do organismo, as matérias-primas e outras mercadorias primárias dominavam o comércio entre os dois lados, hoje, apesar de continuarem a ser a sua base, “observa-se uma diversificação progressiva e real”, entende Odair Barros-Varela, docente da Escola de Negócios e Governação da Universidade de Cabo Verde.


O académico destaca a mudança verificada no paradigma das exportações da China para os Países de Língua Portuguesa. Esta categoria é actualmente “dominada por produtos manufacturados, maquinaria, equipamentos electrónicos e bens de consumo de maior tecnologia, que são fundamentais para o desenvolvimento e a modernização das economias lusófonas”, analisa.


As prioridades do Fórum de Macau ilustram o rumo que se pretende para as relações comerciais sino-lusófonas. O Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial (2024-2027), assinado por ocasião da 6.ª Conferência Ministerial, realizada em 2024, sublinha a necessidade de aumentar “ progressivamente a importância e a qualidade das trocas comerciais” e de apostar na “exploração de novos modelos de desenvolvimento do comércio de bens e serviços, importação e exportação de tecnologias”.


A Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) assume, assim, um papel estratégico na elevação da qualidade das relações comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa, defende Odair Barros-Varela. Além de apoiarem os trabalhos do Fórum de Macau, as autoridades do território têm vindo a levar a cabo iniciativas como a Exposição Económica e Comercial China-Países de Língua Portuguesa (Macau) ( C-PLPEX) e a organização de missões empresariais dos Países de Língua Portuguesa a Macau e ao Interior da China – e vice-versa –, as quais procuram acrescentar valor ao comércio entre os dois lados.


A diversificação nas trocas comerciais sino-lusófonas reflecte também a política chinesa no sentido da modernização da sua economia. As indústrias de alta tecnologia e elevado valor acrescentado estão a substituir a indústria transformadora de baixo custo como principal motor de crescimento do país, segundo vários analistas.


Em 2025, as exportações globais chinesas de produtos de alta tecnologia superaram os 750 mil milhões de dólares americanos, representando um aumento anual de 13,2 por cento e contribuindo para uma redução da quota total das indústrias tradicionais nas vendas ao exterior, segundo dados divulgados pelos Serviços de Alfândega da China. Verificou-se um crescimento de 27,1 por cento no que toca aos veículos eléctricos, baterias de lítio e equipamentos de produção de energia solar. Já as vendas ao exterior de turbinas de produção de energia eólica subiram 49,7 por cento no ano passado face a 2024. No sector dos robôs industriais, as exportações deram um “pulo” de 48,7 por cento, ultrapassando, pela primeira vez, as importações chinesas deste tipo de tecnologia – na prática, a China tornou-se, em 2025, um exportador líquido de robótica industrial.


Francisco Leandro destaca as orientações do 15.º Plano Quinquenal da China, cobrindo o período entre 2026 e 2030, que projectam a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau “como um dos principais motores da modernização e do crescimento de alta qualidade da China”. “A Grande Baía é reconhecida como um pólo global de inovação – liderado pelo eixo Shenzhen‑Hong Kong‑Guangzhou – e beneficia de investimentos contínuos em conectividade, integração regional e desenvolvimento tecnológico”, refere.


O académico associa a isso o Terceiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socioeconómico da RAEM (2026-2030), em preparação, que se vai articular com o 15.º Plano Quinquenal da China. O documento deverá incluir novas medidas para consolidar o papel de Macau como plataforma de cooperação sino-lusófona. O terceiro Plano Quinquenal “criará melhores condições para que a RAEM aprofunde a sua função de interface económica, científica e cultural na relação China-Países de Língua Portuguesa”, argumenta Francisco Leandro.


No âmbito da diversificação das trocas comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Carlos Cid Álvares, presidente da Comissão Executiva do Banco Nacional Ultramarino (BNU), com sede na RAEM, afirma que já se observa uma “procura crescente, embora modesta”. A expectativa é que o processo ganhe força “através da atracção de grandes empresas chinesas para Macau, como plataforma de entrada nos mercados lusófonos”, refere, além do “acesso facilitado a pequenas e médias empresas que pretendam explorar oportunidades” nos Países de Língua Portuguesa e do “crescimento e maturidade de Hengqin”.


Segundo o também presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, o BNU tem promovido Macau, Hengqin e a Grande Baía junto de empresários lusófonos e já “existem alguns casos de sucesso, embora ainda em número reduzido”. Essa promoção tem sido realizada com o apoio do grupo bancário português Caixa Geral de Depósitos, do qual o BNU faz parte, e que tem presença em vários mercados de expressão portuguesa.


É também no aprofundamento da cooperação ao nível regional que Odair Barros-Varela vê a chave para uma diversificação comercial “ainda mais robusta” entre a China e os Países de Língua Portuguesa. “Com o seu foco na inovação tecnológica e reformas pró-mercado, a Grande Baía apresenta uma procura natural por sectores onde os Países de Língua Portuguesa têm vantagens comparativas, criando uma complementaridade ideal”, defende.


A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) nota, numa análise, uma “crescente apetência dos consumidores chineses por produtos importados de alta qualidade”. Em termos de oportunidades de negócio de valor acrescentado, a China apresenta-se como um “mercado interessante” para as empresas lusas no que toca a produtos de inteligência artificial, soluções e equipamentos de tecnologia avançada, cuidados de saúde e “life sciences”, indústria de tecnologia verde e mobilidade eléctrica.


Portugal, de resto, viu as suas exportações para a China de produtos industriais transformados de alta tecnologia subir mais de 80 por cento entre 2021 e 2024, de acordo com dados oficiais. Esse segmento representa agora quase um quinto do total dos produtos industriais transformados vendidos por empresas lusas ao mercado chinês, com destaque para os equipamentos de telecomunicações e instrumentos médicos, ópticos e de precisão.

Comércio verde

Um dos sectores em maior crescimento no campo do comércio sino-lusófono de elevado valor acrescentado é o das energias renováveis e da transição energética. Neste domínio, o académico brasileiro Trindade d’Ávila Magalhães nota que “o Brasil tem uma matriz energética relativamente ‘limpa’ e uma matriz de transporte ‘suja’; a China tem o inverso”, sendo que essa “complementaridade estrutural delineia o potencial” da relação comercial.


“O factor China tem sido decisivo para induzir o Brasil em direcção a uma matriz de transportes mais limpa”, afirma o responsável, numa referência às vendas chinesas de veículos eléctricos, equipamentos ferroviários e baterias. Mais recentemente, várias empresas chinesas estão mesmo a estabelecer unidades para fabricar estes produtos localmente em solo brasileiro, exportando para o país “know-how” e tecnologia de ponta.


A China tem sido também um fornecedor estratégico de Cabo Verde no âmbito das exportações de equipamentos “verdes”. O país insular tem a ambição de atingir a meta de 50 por cento de produção de energia a partir de fontes renováveis até 2030 e “a China, como líder mundial em tecnologia de energias limpas, é o parceiro ideal para este desafio”, defende Odair Barros-Varela.


O sector agrícola de vários Países de Língua Portuguesa em África tem igualmente beneficiado da relação com a China. “A transferência de tecnologia, conhecimento e investimento está a gerar transformações profundas e mensuráveis”, avalia o académico da Universidade de Cabo Verde.


O impacto mais imediato é na produtividade e na subida nas cadeias de valor, através do processamento doméstico de matérias-primas. Segundo Odair Barros-Varela, “há um esforço concertado para modernizar as práticas agrícolas através da introdução de maquinaria e tecnologias de gestão”. Essa maior e melhor produção pode depois ser parcialmente canalizada para exportação, nomeadamente para a China.


Por exemplo, no ano passado, a Citic Construction (Angola) Co., Lda., ligada ao conglomerado estatal chinês Citic Group, anunciou um investimento de cerca de 250 milhões de dólares americanos num projecto agrícola em Angola. O objectivo a longo prazo da iniciativa é atingir uma área de produção de 100 mil hectares, cobrindo diversas províncias do país africano, focada nas culturas do milho e da soja, para consumo interno e também para exportação,particularmente para o mercado chinês.


Para continuarem a subir na escala de valor das trocas comerciais, é necessário aos Países de Língua Portuguesa começarem também a desenvolver uma presença no campo das exportações digitais. Para Odair Barros-Varela, esse é um dos desafios do futuro: existe “um desnível de desenvolvimento digital” entre a China e os Países de Língua Portuguesa, diz.


“Para participar em sectores como o comércio electrónico transfronteiriço, é necessário superar este fosso, o que exige investimentos significativos em conectividade e capacitação”, explica. Mas também aqui a China poderá trazer respostas: “A colaboração com empresas chinesas, como a Huawei, para desenvolver estes ecossistemas de inovação, incubação de start-ups e formação especializada é uma via de cooperação com imenso potencial”, remata o docente cabo-verdiano.