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O Arquipélago dos Bijagós: Património Mundial, Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável
Tempo de liberação:2026-05-07
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Foto: Damian Pankowise


A inscrição dos Ecossistemas Costeiros e Marinhos do Arquipélago dos Bijagós – Omatí Minhô na Lista do Património Mundial Natural da UNESCO, durante a 47.ª Sessão do Comité do Património Mundial (Decisão 47COM 8B.4, 2025)[1], constitui um dos mais relevantes reconhecimentos internacionais alcançados pela Guiné‑Bissau. A decisão consagra o valor universal excepcional de um território onde biodiversidade, cultura e processos ecológicos activos convergem de forma singular.


O sítio foi inscrito com base nos critérios naturais (ix) e (x) da Convenção do Património Mundial, relativos à preservação de processos ecológicos em curso e à conservação de habitats naturais de importância global[1]. A UNESCO reconheceu o arquipélago como o único sistema deltaico activo da fachada atlântica africana, caracterizado por deposição contínua de sedimentos transportados pelos rios e por permanente transformação geomorfológica resultante da dinâmica das marés, correntes oceânicas e fluxos fluviais[2].


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Foto: Nature Picture Library


Composto por cerca de 88 ilhas e ilhéus, abrangendo aproximadamente 10.000 quilómetros quadrados — dos quais cerca de 1.600 correspondem à superfície terrestre[2] — o Arquipélago dos Bijagós integra extensos mangais, bancos intertidais, canais estuarinos, pradarias marinhas e ilhas arenosas em constante mutação. Este conjunto de ecossistemas mantém processos ecológicos de importância global e desempenha papel determinante na estabilidade ambiental da região costeira da África Ocidental[1].

Biodiversidade e Integridade Ecológica

Os Bijagós constituem o segundo local mais importante de África para aves migratórias da rota do Atlântico Oriental[3]. Estima‑se que mais de 870.000 aves limícolas utilizem anualmente os bancos intertidais do arquipélago como áreas essenciais de alimentação e repouso durante as suas migrações entre a Europa, a Ásia e o continente africano.


Entre os elementos mais emblemáticos destaca‑se a tartaruga verde (Chelonia mydas), cuja nidificação assume particular relevância no ilhéu de Poilão, considerado um dos mais importantes locais de desova da espécie a nível mundial[1]. As águas costeiras albergam igualmente espécies ameaçadas como o manatim da África Ocidental (Trichechus senegalensis) e o golfinho corcunda do Atlântico (Sousa teuszii)[1].


No Parque Nacional de Orango observa‑se ainda a presença singular de hipopótamos (Hippopotamus amphibius) adaptados a ambientes marinho‑costeiros, fenómeno raro à escala internacional e documentado pelo Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP)[4].


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Foto: Diana Jarvis


A UNESCO sublinhou o elevado grau de integridade ecológica do sítio, bem como a existência de enquadramento jurídico e institucional adequado, assegurado pela rede nacional de áreas protegidas e pelos instrumentos de gestão ambiental em vigor[1].

Turismo Sustentável e Potencial Estruturado de Desenvolvimento

O reconhecimento como Património Mundial reforça significativamente o posicionamento internacional do arquipélago enquanto destino emergente de turismo de natureza na África Ocidental.


Segundo dados do Banco Mundial, a Guiné‑Bissau registou aproximadamente 52.400 chegadas internacionais em 2019[5], reflectindo crescimento consistente ao longo da década anterior. Embora o país permaneça um destino de baixa densidade turística, o segmento associado à natureza, observação de aves e turismo científico tem vindo a assumir relevância crescente.


Os principais mercados emissores situam‑se na Europa — incluindo Portugal, França, Espanha e Itália — bem como em países da África Ocidental[6]. O perfil do visitante caracteriza‑se por elevada sensibilidade ambiental e interesse em experiências autênticas e de contacto directo com ecossistemas preservados.


A capacidade hoteleira do arquipélago permanece deliberadamente reduzida, característica coerente com o estatuto de área protegida e Reserva da Biosfera. Entre as principais unidades destacam‑se o Orango Parque Hotel (Parque Nacional de Orango), pequenos eco‑lodges localizados em Bubaque e ilhas adjacentes, bem como guesthouses familiares e iniciativas de turismo comunitário. A maioria das infra‑estruturas possui entre 5 e 20 quartos, operando em regime sazonal e recorrendo, em diversos casos, a soluções energéticas autónomas, incluindo sistemas solares. A oferta turística caracteriza‑se por baixa densidade e dimensão limitada, compatível com os planos de gestão das áreas protegidas e com o objectivo de preservar a integridade ecológica do sítio[4].


O acesso internacional realiza‑se através do Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, em Bissau, sendo a ligação ao arquipélago assegurada por transporte marítimo regular e operadores privados. A melhoria das infra‑estruturas portuárias, da conectividade marítima e da logística insular constitui área estratégica para o desenvolvimento sustentável do sector.


O turismo é reconhecido pelo Governo da Guiné‑Bissau como sector estratégico para a diversificação económica, conforme documentos nacionais de planeamento e cooperação internacional[6]. Programas apoiados por parceiros multilaterais — incluindo Banco Mundial, União Europeia e sistema das Nações Unidas — têm integrado componentes de conservação ambiental associada à geração de rendimento local, reforço institucional e desenvolvimento de capacidades técnicas.


Neste contexto, a cooperação sino‑guineense tem igualmente contribuído para a melhoria de infra‑estruturas estratégicas, incluindo transportes e sector portuário, factores essenciais para o fortalecimento de um turismo sustentável e estruturado[7].


A economia da Guiné‑Bissau caracteriza‑se por elevada concentração das exportações na castanha de caju[8], o que evidencia vulnerabilidade estrutural associada à dependência de um único produto primário. A consolidação de um sector turístico sustentável nos Bijagós representa, assim, uma oportunidade estratégica de diversificação económica, geração de emprego local qualificado, captação de investimento responsável e integração em cadeias de valor ligadas à economia azul.


A Figura 1 ilustra a configuração aproximada das exportações e importações da Guine-Bissau com os seus principais parceiros económicos (estimativas 2024-2025).


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O modelo preconizado assenta na valorização ambiental, na limitação de carga turística e na articulação entre conservação e desenvolvimento, assegurando compatibilidade entre crescimento económico e preservação dos ecossistemas que fundamentaram o reconhecimento internacional.


O investimento turístico no Arquipélago dos Bijagós encontra‑se enquadrado pelo regime nacional de investimento privado da Guiné‑Bissau e, de forma específica, pelo regime de concessões e autorizações aplicável às áreas protegidas, sob supervisão ambiental do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP). Este regime estabelece que quaisquer projectos de natureza turística ou infra‑estrutural devem ser previamente autorizados e compatíveis com os planos de gestão ambiental aprovados, assegurando a preservação da integridade ecológica do sítio classificado como Património Mundial. A existência deste enquadramento jurídico constitui elemento estruturante para decisores e potenciais investidores, na medida em que define regras claras de compatibilidade ambiental, previsibilidade institucional e alinhamento com padrões internacionais de sustentabilidade.

Perspectiva Estratégica

O Arquipélago dos Bijagós afirma‑se como activo estratégico de elevado valor ecológico, científico e económico. A sua singularidade ambiental, aliada ao reconhecimento internacional e a um quadro institucional de gestão consolidado, cria condições favoráveis para o desenvolvimento de iniciativas de investimento sustentáveis e reguladas.


A consolidação deste modelo dependerá da capacidade de reforçar infra‑estruturas críticas, melhorar a conectividade, aprofundar a capacitação técnica e assegurar que o crescimento do turismo decorra de forma gradual e compatível com os planos de gestão ambiental.


A articulação entre património natural, turismo sustentável e cooperação internacional posiciona o arquipélago como referência emergente de desenvolvimento baseado na valorização do capital natural, contribuindo para a modernização económica da Guiné‑Bissau e para a sua integração em dinâmicas regionais e globais de economia sustentável.


Fontes

[1] UNESCO World Heritage Committee (2025). Decision 47COM 8B.4 – Coastal and Marine Ecosystems of the Bijagós Archipelago – Omatí Minhô.

[2] UNESCO World Heritage Centre (2025). Official Nomination and Site Documentation – Bijagós Archipelago.

[3]Wetlands International (2024–2025). East Atlantic Flyway Census Reports.

[4]Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP). Documentação Oficial dos Parques Nacionais dos Bijagós.

[5] World Bank (2024). World Development Indicators – International Tourism Arrivals, Guinea‑Bissau.

[6]Governo da Guiné‑Bissau; UN Tourism (World Tourism Organization). Documentos Estratégicos e Estatísticas Sectoriais do Turismo.

[7]Ministério do Comércio da República Popular da China; Documentação oficial de Cooperação Económica China–Guiné‑Bissau.

[8]BCEAO; World Bank Trade Data (2023–2024). Estatísticas de Comércio Externo da Guiné‑Bissau.