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Angola procura investidores para revitalizar o sector do café
Tempo de liberação:2026-05-07
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Foto: Shutterstock


Angola registou em 2024 um crescimento de 63,7% na produção de café comercial, atingindo 12.360 toneladas[1], segundo dados do Ministério da Agricultura e Florestas. O Executivo definiu metas progressivas até 2027, prevendo alcançar 14.513 toneladas[1], no quadro da estratégia de revitalização sustentável e modernização do sector agrícola.


Este crescimento insere‑se num esforço mais amplo de diversificação económica, reduzindo a dependência do petróleo e reforçando as exportações não petrolíferas, prioridade assumida no Plano de Desenvolvimento Nacional 2023‑2027[2]. O café surge, neste contexto, como uma cultura com forte valor histórico, capacidade de geração de emprego rural e potencial de captação de investimento externo.


O Governo está a promover financiamento agrícola, incentivos fiscais e reabilitação de plantações históricas[2], criando condições favoráveis à entrada de novos investidores nacionais e estrangeiros. Com tradição produtiva reconhecida e condições agro‑ecológicas competitivas — clima tropical húmido, altitude adequada e solos férteis — Angola procura reposicionar‑se como produtor moderno e sustentável no mercado internacional.


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Foto: Macaulink

Uma herança histórica com potencial renovado

Durante grande parte do século XX, o café foi um dos pilares estruturantes da economia angolana. Em 1973, Angola produzia mais de 200.000 toneladas anuais[3], posicionando‑se como o quarto maior produtor mundial e o maior produtor africano de café robusta na época. A cultura estava fortemente implantada nas províncias do Uíge, Cuanza Norte e Cuanza Sul, onde se desenvolveu uma importante rede de fazendas, infra‑estruturas de processamento e cadeias logísticas de exportação.


A independência, em 1975, e o subsequente conflito armado provocaram uma quebra abrupta da produção[3]. Plantações foram abandonadas, quadros técnicos emigraram e infra‑estruturas ficaram degradadas. Durante décadas, o sector permaneceu muito abaixo do seu potencial histórico.


Nos últimos anos, contudo, o Executivo tem vindo a recuperar progressivamente áreas produtivas, reabilitando viveiros e incentivando o regresso de produtores às zonas tradicionais de cultivo. A estratégia actual não procura replicar o modelo extensivo do passado, mas sim construir um sector mais diversificado, sustentável e tecnologicamente actualizado.

Produção actual e metas até 2027

Em 2024, a produção nacional atingiu 12.360 toneladas, face a 7.547 toneladas no ano anterior, representando um crescimento de 63,7%[1]. Este aumento reflecte a recuperação de plantações, melhoria das práticas agrícolas e maior coordenação institucional através do Instituto Nacional do Café de Angola (INCA).


As metas oficiais estabelecem:[1]

  • 2025: 12.929 toneladas

  • 2026: 13.717 toneladas

  • 2027: 14.513 toneladas


A trajectória prevista aponta para crescimento gradual e sustentável, evitando expansões abruptas que comprometam a qualidade e a organização da cadeia produtiva.


A produção mantém‑se concentrada sobretudo nas províncias do Uíge, Cuanza Norte, Cuanza Sul e Bengo[1], regiões com tradição histórica na cultura cafeeira e condições naturais favoráveis.


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Foto: Fundo Desenvolvimento de Café em Angola


Evolução das exportações (2020 2025)

Paralelamente à recuperação produtiva, as exportações têm registado evolução positiva. Segundo dados do comércio internacional (UN Comtrade e ITC Trade Map)[4], as exportações de café de Angola registaram a seguinte evolução:

  • 2020: 1.180 toneladas

  • 2021: 1.320 toneladas

  • 2022: 1.427 toneladas

  • 2023: 1.540 toneladas

  • 2024: 2.165 toneladas

A trajectória evidencia crescimento consistente, com aceleração significativa entre 2023 e 2024, acompanhando a recuperação da produção nacional.


Para 2025, não existindo ainda dados consolidados, a evolução recente da produção permite antever exportações na ordem das 2.300 a 2.500 toneladas (estimativa técnica com base na tendência 2022‑2024) [4].


Actualmente, o sector conta com 21 empresas exportadoras activas[1], reflectindo maior dinamismo empresarial e crescente inserção nos circuitos internacionais de comércio.


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Principais destinos das exportações

Em 2024, os principais mercados compradores foram[4]

  • Portugal (cerca de 38%)

  • Itália (aproximadamente 17%)

  • Polónia (cerca de 14%)

  • Bélgica (aproximadamente 11%)

  • Turquia (cerca de 8%)

  • Outros mercados (12%)


Portugal mantém se como principal destino do café angolano, reflectindo laços históricos e comerciais consolidados. A presença em mercados europeus diversificados demonstra, contudo, progressiva integração nas cadeias internacionais de comercialização.


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Estrutura produtiva e impacto social

O sector caracteriza‑se por forte presença de pequenos e médios produtores familiares. Estima‑se que dezenas de milhares de produtores estejam envolvidos na cultura do café, com impacto directo e indirecto em mais de 100.000 pessoas nas regiões produtoras[1].


O reforço do sector cafeeiro assume, assim, dimensão económica e social, contribuindo para a fixação de populações no meio rural, geração de rendimento local e dinamização de economias provinciais.


O Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) e o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA) disponibilizam linhas de financiamento destinadas à recuperação de plantações, aquisição de equipamentos e modernização das infra‑estruturas de processamento[5]. Estes instrumentos procuram reduzir constrangimentos históricos de acesso ao crédito agrícola.


Ao abrigo da Lei do Investimento Privado (Lei n.º 10/18)[6], projectos agrícolas podem beneficiar de incentivos fiscais e aduaneiros, reforçando a atractividade do sector para investidores externos.


Capacidade de processamento local e desenvolvimento de marcas angolanas

Paralelamente à recuperação da produção primária, Angola tem vindo a reforçar progressivamente a sua capacidade de processamento interno, nomeadamente nas áreas de descasque, secagem, classificação, torrefacção e embalagem. As províncias do Uíge, Cuanza Norte e Cuanza Sul concentram actualmente iniciativas de modernização de infra‑estruturas de transformação primária e melhoria da qualidade pós‑colheita, sob coordenação do Instituto Nacional do Café de Angola (INCA)[3].


No domínio da torrefacção e embalagem industrial, o país dispõe já de operadores estruturados com capacidade instalada para processamento em escala comercial. Entre as marcas angolanas com presença no mercado interno destacam‑se o Café Cazengo    e a Bela Negra, entre outras iniciativas empresariais emergentes que apostam na valorização da origem nacional e na consolidação de identidade própria.


Paralelamente, parcerias industriais com operadores internacionais instalados no país, como a Angonabeiro, produtora da marca Ginga, têm contribuído para o reforço da capacidade tecnológica do sector, introduzindo equipamentos modernos de torrefacção, moagem e embalagem, bem como práticas de controlo de qualidade alinhadas com padrões internacionais. A unidade industrial da Angonabeiro, localizada em Luanda, representa actualmente uma das infra‑estruturas mais estruturadas de torrefacção no país, assegurando fornecimento ao mercado nacional e contribuindo para a profissionalização da cadeia de valor[7].


Esta combinação entre iniciativa empresarial angolana e cooperação industrial externa cria condições favoráveis para a consolidação de uma cadeia de valor mais integrada e competitiva, reforçando competências técnicas locais e ampliando gradualmente a incorporação de valor no território nacional.


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Foto: Macaulink

Sustentabilidade, valor acrescentado e industrialização

Apesar da recuperação, a maior parte da produção continua a ser exportada em grão verde[4], evidenciando margem significativa para maior industrialização local. A expansão da torrefacção, embalagem e certificação sustentável representa uma oportunidade clara de criação de valor acrescentado interno.


O desenvolvimento de marcas nacionais, certificações de origem e práticas alinhadas com padrões internacionais de sustentabilidade poderá aumentar a competitividade do café angolano em nichos de mercado de maior valor.


Com crescimento consistente da produção, diversificação de destinos e enquadramento institucional favorável, Angola reúne condições para reforçar progressivamente a sua presença no mercado internacional do café, posicionando o sector como um dos pilares estruturantes da estratégia de diversificação económica do país.


Fontes

[1] Ministério da Agricultura e Florestas da República de Angola, Relatório de Balanço 2024; Embaixada da República de Angola na Türkiye, “Produção de café aumenta 63 por cento”, 10 de Janeiro de 2025.

[2] Plano de Desenvolvimento Nacional 2023‑2027, República de Angola.

[3] Instituto Nacional do Café de Angola (INCA), dados históricos sectoriais.

[4] UN Comtrade Database; ITC Trade Map (HS 090111 – Café não torrado).

[5] Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA); Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA).

[6] Lei do Investimento Privado (Lei n.º 10/18), República de Angola.

[7] Angonabeiro – Informação institucional e comunicados empresariais; Agência Angola Press (ANGOP); Grupo Nabeiro/Delta Cafés – Comunicações públicas sobre investimento industrial em Angola.