Macau afirma-se como plataforma estratégica para a disseminação dessa prática milenar
A medicina tradicional chinesa é uma das áreas prioritárias no âmbito dos projectos de cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa, com Macau a desempenhar um papel importante no esforço de internacionalização dessa indústria. A coordenação e colaboração entre vários organismos – tanto públicos como privados – são vistas como essenciais para o sucesso das iniciativas preconizadas pelas autoridades, segundo especialistas do sector.
A Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) tem-se posicionado como um eixo estratégico na cooperação internacional no sector da saúde, aproveitando o prestígio e os recursos ligados à medicina tradicional chinesa para reforçar os laços com os países lusófonos, bem como para consolidar a sua relevância no panorama da saúde global.
Neste âmbito, o Fórum de Macau tem desenvolvido um trabalho crucial, tal como destacado durante a 6.ª Conferência Ministerial, realizada em Abril de 2024. No encontro, os ministros presentes reconheceram o papel da RAEM na promoção de intercâmbios e projectos conjuntos no domínio da saúde e da medicina tradicional chinesa. Além disso, realçaram também os esforços desenvolvidos nesta área através do Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong-Macau.
Segundo o “Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial (2024-2027)”, assinado na 6.ª Conferência Ministerial, a China mantém-se empenhada em desenvolver projectos de cooperação na área da saúde com os países interessados, de forma a elevar o nível da cooperação médica e sanitária.
As partes envolvidas tomaram ainda nota do potencial de aplicação e dos benefícios económicos e sanitários que podem ser criados com o aprofundamento da cooperação na área da medicina tradicional entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Para além da realização de projectos de intercâmbio e cooperação, as autoridades chinesas manifestaram a sua disponibilidade para reforçar a formação de quadros qualificados nos países lusófonos, estabelecendo, naqueles que reúnam condições, centros de medicina tradicional chinesa.
Colaboração abrangente
Em Dezembro, a dirigente da Administração Nacional de Medicina Tradicional Chinesa, Yu Yanhong, afirmou que a China pretende formar 1.300 profissionais de saúde estrangeiros na área da medicina tradicional chinesa nos próximos três anos, num esforço para expandir a sua utilização a nível internacional.
Foi nesse contexto de maior cooperação que foi inaugurada este ano, na cidade de São Paulo, a nova sede da Base de Cooperação China-Brasil de Medicina Tradicional Chinesa, uma organização sem fins lucrativos empenhada em apoiar o desenvolvimento dessa indústria no Brasil.
O Professor Wang Chunming, especialista em Ciências Farmacêuticas no Instituto de Ciências Médicas Chinesas da Universidade de Macau, destacou a importância de parcerias institucionais para a concretização dos centros de medicina tradicional chinesa.
“Em qualquer país, o desenvolvimento da medicina tradicional – seja na sua aplicação nos sistemas de saúde, seja na sua vertente industrial ligada ao desenvolvimento de fármacos – exige colaborações consistentes entre agências governamentais, decisores políticos, organizações financiadoras, indústria, hospitais e académicos, incluindo cientistas”, refere.
“A implementação de uma política de medicina tradicional, a criação de um centro desse tipo ou o desenvolvimento de um medicamento fitoterápico moderno requerem compreensão mútua e esforços colaborativos entre todas estas partes, sob uma coordenação clara, forte e consistente”, sublinha Wang Chunming. “Certamente, a colaboração entre instituições de ensino e associações locais – tanto governamentais como não-governamentais – é vital.”
Maior promoção
Em Setembro do ano passado, os Serviços de Saúde de Macau organizaram o “Fórum de Big Health de Medicina Tradicional Chinesa”, com o objectivo de consolidar Macau como um centro internacional de medicina tradicional, aprofundar a cooperação entre o Interior da China e os países lusófonos e promover a modernização, a industrialização e a internacionalização do sector. O Fórum contou com a presença de mais de 120 representantes de diferentes províncias e cidades do Interior da China, serviços públicos de Macau, instituições médicas e académicas, especialistas de renome, associações e sectores profissionais, entre outros.
Na ocasião, o Subdirector da Administração Estatal de Medicina Tradicional Chinesa, Wang Zhiyong, sublinhou que a indústria da medicina tradicional chinesa em Macau tem vindo a conhecer novas oportunidades de desenvolvimento. O responsável elogiou também os avanços na qualidade dos produtos, o papel das universidades locais em termos de inovação científica e os esforços para integrar a medicina tradicional no projecto de diversificação económica de Macau.
De acordo com as autoridades da RAEM, o Centro de Cooperação de Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde (Macau) tem desempenhado, de forma contínua, o seu papel enquanto plataforma, tendo prestado apoio a dirigentes da área da saúde de 73 países, especialmente dos Países de Língua Portuguesa e dos países abrangidos pela iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, bem como aos profissionais de medicina tradicional chinesa da RAEM.
Segundo dados disponíveis até Setembro, cerca de 2.800 pessoas tinham já participado em cursos de formação profissional organizados pelo Centro de Cooperação.
Essas iniciativas vão ao encontro dos objectivos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em Dezembro, o Chefe da Unidade de Medicina Tradicional, Complementar e Integrativa da OMS, Kim Sungchol, participou num evento em Macau, no qual apresentou as políticas da organização, bem como a “Estratégia da Medicina Tradicional da Organização Mundial da Saúde 2025-2034”, que visa integrar práticas tradicionais, complementares e integradas da saúde global, com foco na segurança, eficácia e acesso equitativo a cuidados médicos de qualidade.
Apoios ao desenvolvimento
O Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong-Macau, inaugurado em Hengqin em Abril de 2011, tem sido um dos principais motores para a internacionalização do sector. De acordo com dados oficiais, o Parque Industrial contava com 235 empresas registadas no final de Maio do corrente ano, 96 das quais de Macau. O Parque oferece serviços avançados em conformidade com normas internacionais e procura promover a cooperação com os Países de Língua Portuguesa, com base nos vários acordos de cooperação assinados na última década.
Num comunicado, o Director dos Serviços de Saúde de Macau, Alvis Lo, salientou que o Parque Industrial tem “explorado plenamente as vantagens da ‘Plataforma dos Serviços Públicos de Registo dos Produtos de Medicina Tradicional Chinesa no Estrangeiro (Hengqin)’ e o papel de Macau como plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.
“Utilizando os Países de Língua Portuguesa como ponto de entrada, os mercados regionais na África, Europa e Sudeste Asiático estão a ser gradualmente desenvolvidos”, acrescentou o mesmo responsável.
Até ao final de Dezembro de 2024, segundo dados oficiais, o Parque Industrial apoiou, com sucesso, empresas do Interior da China e de Macau a concluírem o registo internacional de 13 produtos de medicamentos tradicionais chineses em Moçambique e 11 produtos no Brasil.
Por outro lado, as autoridades da RAEM anunciaram recentemente que será adoptado um modelo inovador de “Registo de Macau + Produção em Hengqin” para promover o desenvolvimento integrado e profundo da indústria de medicina tradicional chinesa, bem como constituído um modelo de “Investigação e Desenvolvimento em Macau + Transformação em Hengqin”, para apoiar projectos de indústria-universidade-investigação.


